Pesquisa da UFSCar sobre saúde materna e metabolismo dos descendentes conquista prêmio nacional

Pesquisa premiada na UFSCar
Pesquisa premiada na UFSCar

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que investiga como alterações nas mitocôndrias das células reprodutivas femininas podem repercutir sobre o metabolismo das gerações seguintes conquistou reconhecimento nacional.

A doutoranda Angelica Camargo dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Genética Evolutiva e Biologia Molecular da UFSCar, recebeu o 2º lugar na categoria Melhor Trabalho na Área Básica durante a XXXIX Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE), realizada em Mogi das Cruzes (SP), em 2026.

O estudo é desenvolvido no Laboratório de Genética e Biotecnologia (Lagenbio), sob orientação do professor Marcos Roberto Chiaratti, do Departamento de Genética e Evolução (DGE) da UFSCar.

Pesquisa investiga influência materna sobre a geração seguinte

O trabalho procura compreender como alterações no funcionamento das mitocôndrias dos oócitos podem estar relacionadas a mudanças metabólicas observadas posteriormente nos descendentes.

Os oócitos são células reprodutivas femininas que fornecem praticamente todo o conteúdo celular inicial necessário para o começo do desenvolvimento embrionário. As mitocôndrias, por sua vez, são estruturas fundamentais para a produção de energia das células.

Um ponto importante é que as mitocôndrias presentes no embrião são provenientes essencialmente do oócito e, portanto, transmitidas pela via materna.

Segundo Angelica, estudar o funcionamento dessas estruturas dentro dos oócitos pode ajudar os cientistas a compreender como determinadas alterações maternas podem influenciar a geração seguinte.

A questão ganha relevância diante da elevada ocorrência de doenças cardiometabólicas, entre elas obesidade e diabetes tipo 2. Já existem evidências científicas associando a obesidade materna a alterações metabólicas nos filhos, mas os mecanismos envolvidos nessa relação ainda não são completamente compreendidos.

Cientistas alteraram proteína das mitocôndrias

Um dos pontos centrais da pesquisa é a Mitofusina 2 (MFN2), proteína importante para o funcionamento das mitocôndrias e para a interação dessas estruturas com outros componentes das células.

No experimento realizado com camundongas, os pesquisadores desligaram o gene responsável pela MFN2 especificamente nos oócitos, procedimento conhecido como nocaute.

Os animais foram divididos em quatro grupos, combinando presença ou ausência do nocaute da MFN2 com dois tipos de alimentação: dieta normal ou dieta rica em gordura.

Depois de determinado período, as fêmeas foram acasaladas com machos sem alterações genéticas.

Os pesquisadores passaram então a estudar os descendentes, classificados como geração F1.

Um detalhe importante do experimento é que todos os filhotes possuíam a mesma constituição genética e receberam dieta normal depois do desmame, independentemente da alimentação oferecida às mães.

Centenas de genes apresentaram atividade diferente

A equipe analisou o fígado dos descendentes. O órgão foi escolhido por exercer papel central no metabolismo e apresentar intensa atividade metabólica.

Os resultados mostraram diferenças na expressão de centenas de genes associadas às condições experimentais maternas, mesmo com os filhotes recebendo alimentação com teor normal de gordura depois do desmame.

Foram identificados 482 genes com atividade alterada nos descendentes de mães alimentadas com dieta normal e que apresentavam nocaute da MFN2 nos oócitos.

O número foi ainda maior quando dois fatores foram combinados: deficiência de MFN2 no oócito e alimentação materna rica em gordura. Nesse grupo, quase 900 genes apresentaram expressão alterada em comparação com os descendentes das mães do grupo controle.

De acordo com a pesquisadora, os resultados indicam que a deficiência da MFN2, especialmente quando associada à dieta materna rica em gordura, altera a biologia do oócito e está associada a mudanças na expressão de genes no fígado dos descendentes.

Os achados são provenientes de um modelo experimental com animais e não significam, por si só, que os mesmos efeitos ocorram da mesma maneira em seres humanos.

Pesquisa vai acompanhar outras gerações

O estudo começou em 2020 e integra uma linha de pesquisa desenvolvida no Lagenbio, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O trabalho não termina na primeira geração.

Depois de analisar os animais da geração F1, os pesquisadores estão acompanhando também as gerações F2 e F3. O objetivo é descobrir se algumas das alterações identificadas podem permanecer ao longo das gerações.

Para Angelica, o prêmio recebido durante a reunião da SBTE também representa um reconhecimento da importância da ciência básica.

“Antes de pensarmos em possíveis aplicações, precisamos entender os mecanismos que estão por trás dos processos biológicos. O prêmio mostra que estamos no caminho certo”, afirmou a doutoranda.

A pesquisa realizada em São Carlos contribui para uma área que busca compreender como fatores relacionados à saúde e ao metabolismo maternos podem deixar efeitos biológicos nos descendentes e quais mecanismos celulares estão envolvidos nesse processo.

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