Com 30 anos em sala de aula, professor diz que internet derrubou interesse dos alunos pela escola

Professor fala sobre a internet
Professor fala sobre a internet

Neste dia 15 de outubro, entrevistamos o professor Aurélio (ele preferiu ser chamado assim). Nesta reportagem, ele conta um pouco sobre o que viu ao longo de sua trajetória na sala de aula. Confira os principais trechos:

Portal São Carlos em Rede (PSCR): Professor Aurélio, o senhor tem 30 anos de magistério. Pode nos contar como foi sua trajetória na educação?


Professor Aurélio: Claro! Minha carreira começou em 1994, em uma pequena escola de uma cidade do interior de São Paulo. Desde então, passei por várias instituições, em diversas cidades do interior, como Araraquara, Ribeirão Preto, e agora, em São Carlos, onde resido atualmente. Sempre lecionei em escolas públicas e, desde o início, pude perceber o quanto o ensino é uma força transformadora. Mas também vi de perto as dificuldades que a educação enfrenta no Brasil, especialmente em relação à valorização dos profissionais da área.

PSCR: O senhor mencionou a falta de valorização dos profissionais da educação. Como tem sido essa questão ao longo dos anos?


Professor Aurélio: Infelizmente, essa é uma realidade que pouco mudou com o tempo. Quando comecei a lecionar, já havia um certo descaso por parte dos governos em relação à educação. Os professores eram vistos como peças fundamentais, mas nunca recebiam o reconhecimento adequado, seja em termos de remuneração ou de condições de trabalho. Ao longo dos anos, vi essa situação se arrastar. Os discursos mudam a cada governo, mas na prática, as coisas pouco avançaram. Sempre foi difícil fazer com que os gestores compreendessem a importância da educação de qualidade e de investir nos profissionais que estão na linha de frente.

PSCR: O senhor percebeu alguma mudança no comportamento dos alunos ao longo desses 30 anos?


Professor Aurélio: Sim, bastante. No começo da minha carreira, os alunos tinham um interesse maior em aprender, em buscar conhecimento. Com o passar do tempo, notei uma queda significativa nesse interesse, especialmente com o avanço da internet. A tecnologia trouxe muitas vantagens, mas também fez com que o acesso a informações superficiais se tornasse algo comum. Hoje, muitos jovens acreditam que não precisam se dedicar tanto aos estudos, porque têm tudo “ao alcance de um clique”. Além disso, a falta de oportunidades e a dificuldade de enxergar uma carreira sólida através da educação também desmotivam os estudantes. Eles veem pessoas ganhando a vida com atividades fora do ambiente acadêmico, o que enfraquece a crença de que o estudo é o caminho para o sucesso.

PSCR: O senhor acredita que a internet é uma das principais razões para essa mudança no comportamento dos alunos?


Professor Aurélio: Sim, sem dúvida. A internet trouxe facilidades, mas também uma avalanche de distrações. Os jovens, hoje, têm muito mais opções de entretenimento e de interação que não dependem da escola. Isso faz com que muitos vejam o estudo como algo secundário. Além disso, as redes sociais e plataformas de conteúdo rápido acabam levando as pessoas a perder o interesse por conteúdos mais profundos, que demandam tempo e dedicação. A escola, que antes era uma das poucas formas de acesso ao conhecimento, agora compete com uma infinidade de outros estímulos.

PSCR: Além da internet, o senhor vê outros fatores que contribuíram para esse declínio de interesse nos estudos?


Professor Aurélio: Sim, vejo também a questão das oportunidades e da forma como o mercado de trabalho se comporta. Antes, o estudo era visto como a única maneira de conseguir um bom emprego e estabilidade. Hoje, há muitas alternativas, como ganhar dinheiro com internet, negócios informais e outras atividades que não exigem formação acadêmica. Isso acaba desmotivando muitos jovens. Eles veem pessoas que alcançam sucesso financeiro sem estudar, o que reforça a ideia de que o estudo não é tão necessário. Esse cenário se agrava quando consideramos que, muitas vezes, a escola não consegue oferecer perspectivas atrativas para os alunos, seja por falta de estrutura ou por um currículo desatualizado.

PSCR: O que o senhor acredita que poderia ser feito para reverter essa situação?


Professor Aurélio: Para começar, precisamos de uma mudança de mentalidade, tanto dos governantes quanto da sociedade como um todo. É necessário entender que investir em educação é garantir um futuro melhor para o país. Os professores precisam ser mais valorizados, não apenas com melhores salários, mas com condições de trabalho dignas e formação continuada. Além disso, o currículo escolar precisa ser adaptado à realidade dos jovens, trazendo conteúdos que façam sentido para eles e que possam ser aplicados em suas vidas e carreiras. E claro, precisamos também encontrar formas de aproveitar a tecnologia e a internet de maneira positiva, integrando-as ao ensino de forma eficiente.

PSCR: E em relação ao senhor, o que o magistério representou nesses 30 anos?


Professor Aurélio: Para mim, foi uma trajetória de muito aprendizado. Ensinar é uma vocação, e mesmo com todas as dificuldades, ainda é gratificante ver o impacto que podemos ter na vida dos alunos. Esses 30 anos me mostraram o quanto a educação é poderosa, mas também me fizeram perceber o quanto ainda temos que lutar para que ela seja valorizada como deveria. Cada aluno que passou pela minha sala de aula deixou uma marca em mim, e acredito que, de alguma forma, também pude contribuir para a formação deles.

PSCR: Professor Aurélio, agradecemos por compartilhar sua experiência e reflexões sobre o ensino. Desejamos muito sucesso em sua jornada.


Professor Aurélio: Eu que agradeço pela oportunidade de falar sobre um tema tão importante. E espero que possamos ver, em breve, mudanças significativas para melhorar a educação no Brasil.

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