Sebastián Piñera ganha as eleições do Chile

O ex-presidente de direita Sebastián Piñera conseguiu uma vitória muito clara sobre Alejandro Guillier e será outra vez presidente do Chile por quatro anos. Com 91,72% das urnas apuradas, Piñera tinha 54,53% dos votos e Guillier, 45,47%, de acordo com a parcial dos votos divulgada pelo Serviço Eleitoral do Chile.

A diferença de nove pontos é muito acima da esperada, o que representa uma derrota muito dura para o progressista, que claramente não conseguiu atrair para si os 20% de chilenos que apoiaram no primeiro turno a esquerdista Frente Amplio. Guillier perdeu inclusive em sua região, Antofagasta. Essa vitória consolida no Chile a guinada liberal da região que teve início em 2015 na Argentina com a vitória de Mauricio Macri, fiel apoiador de Piñera, tanto que até provocou uma grande tensão diplomática ao respaldá-lo abertamente em plena campanha.

Na equipe de Guillier, afirmava-se que a votação acabou sendo menor do que a esperada e caiu em relação ao primeiro turno, o que significaria que o candidato progressista não conseguiu a mobilização do voto da Frente Amplio de que necessitava para reverter uma eleição na qual nunca foi o favorito. Guillier tentou transformar a eleição em um plebiscito contra Piñera, um dos homens mais ricos do país, ao mobilizar o voto anti-direita, mas não conseguiu. As pesquisas, que indicavam um empate técnico, voltaram a falhar.

O Chile debatia se daria uma guinada à direita com Piñera ou se manteria com Guillier o eixo de centro-esquerda em que se colocou com Bachelet há quatro anos, e que dominou quase toda a fase democrática recente do país. Mas a verdade é que a mudança não seria radical em nenhum dos casos. Até mesmo Piñera, na reta final, aceitou indiretamente a polêmica gratuidade da educação universitária promovida por Bachelet. Piñera, que não tem maioria no Parlamento, precisa se aproximar de deputados progressistas moderados para levar adiante suas leis, e isso garante uma transição tranquila.

Com Guillier haveria o aprofundamento das reformas progressistas de Bachelet, com Piñera deve haver parada e reposicionamento, mas é difícil imaginar uma volta atrás radical sequer em uma lei tão polêmica para a direita como a descriminalização parcial do aborto, aprovada por Bachelet na reta final de seu mandato. O mais provável é que Piñera não dê um passo além em direitos civis ou em reformas progressistas, mas é difícil imaginar um forte retrocesso. Não tem força política para isso, nem vontade de se meter nesse vespeiro.

Seu ambiente é o da economia, com redução de impostos — tampouco radicais, sem margem devido ao déficit fiscal— e medidas em favor das empresas para dinamizar a economia. O Chile tem números invejáveis no entorno latino-americano —1,5% de déficit e 25% de dívida— mas altas para sua linha tradicional de equilíbrio fiscal. Então com qualquer um dos dois presidentes esperava-se uma transição tranquila, não uma virada radical.

Tudo indica que Guillier não conseguiu a mobilização de que necessitava no voto de esquerda e de protesto que respaldou a Frente Amplio no primeiro turno. O jornalista que saltou para a política precisava do apoio de todos os votantes da esquerdista Frente Amplio para reverter os resultados do primeiro turno, no qual Piñera obteve 15 pontos de vantagem. E os níveis de participação, menores do que no primeiro turno, indicam que muitos deles preferiram ficar em casa a votar em um candidato socialdemocrata e permitiram assim a vitória de Piñera.

Apesar do drama da reta final de campanha, com uma tensão política muito forte para o tranquilo Chile, os dois candidatos demonstraram um tom conciliador no dia do pleito. Conhecem-se bem, até trabalharam juntos, quando Piñera contratou Guillier como âncora de sua emissora de televisão. Os dois se cumprimentaram e se comprometeram a telefonar imediatamente um para o outro para reconhecer a vitória. “As diferenças não nos transformam em inimigos. Quero cumprimentar Alejandro Guillier, tenho apreço por ele, trabalhamos juntos no passado. Também espero que continuemos a trabalhar juntos no futuro”, afirmou Piñera. “Vamos ganhar por uma diferença clara, pequena, mas clara. Quero enviar um abraço fraterno a todos os chilenos e chilenas, incluindo o líder da oposição”, encerrou Guillier.

A Frente Amplio tem um grande protagonismo nesse segundo turno, muito maior do que conseguiu no primeiro, porque seus 20% são decisivos. E isso fez com que o dia das eleições gerasse ainda mais interesse midiático e entusiasmo da população na votação de Beatriz Sánchez, a jornalista que surpreendeu a todos e colocou as pesquisas em situação ridícula ao ficar muito perto de ir para o segundo turno como candidata da Frente Amplio. Em suas declarações, Sánchez apontou as dificuldades que Guillier teria para conquistar os eleitores do partido que ela representa, situada à esquerda do líder do grupo socialdemocrata. Ela disse que votará no candidato progressista, mas deixou muito clara a distância entre ele e seu grupo.

“Nós, como Frente Amplio, nos apresentamos como projeto de país, vamos fazer oposição a qualquer um dos candidatos. Não vamos participar do Governo. Não vamos estabelecer negociação. Nos colocamos como oposição ao que ganhar. Eu disse em quem vou votar [Guillier] mas as pessoas são donas de seus votos. Não me sinto possuidora dos votos de ninguém. Não fiz uma convocação a votar”, insistiu.

Essa distância demonstrada pela Frente Amplio em relação a Guillier, apesar de seus dirigentes importantes terem dito no último momento que votariam nele, contrasta com o voto da direita, totalmente unida com Piñera. Tanto é que o candidato à direita do ex-presidente, José Antonio Kast, um ultracatólico pinochetista, não só pediu o voto abertamente desde o primeiro minuto para Piñera como foi a uma seção eleitoral interceder em favor do ex-presidente como um gesto a mais para reunir todos os votos diante da esquerda desagregada.

A participação de Kast gerou os únicos momentos tensos de um dia muito tranquilo, como é de costume no Chile. Alguns cidadãos xingaram o dirigente direitista que teve de ser protegido pelas forças da ordem no colégio eleitoral do Estádio Nacional, em Santiago. Os gritos e a tensão continuaram por mais de uma hora, mas os agentes impediram que chegassem a vias de fato. Kast se mantinha firme em sua cadeira enquanto o atacavam.

Nos últimos dias inclusive se tentou instilar nos eleitores de direita o medo de uma vitória de Guillier, apoiado pela Frente Amplio, com o termo “Chilezuela” — uma mistura de Chile e Venezuela — pelo temor de que o Chile entrasse em um caminho bolivariano. É algo tão irreal em um país em que até a intenção de Michelle Bachellet de tornar gratuita a educação universitária teve enormes resistências que virou piada. “A ideia de Chilezuela é ridícula, ficará como um ponto de humor nessa campanha” riu Sánchez. Nada é tão dramático no Chile como costuma ser em seus vizinhos latino-americanos, sequer a política.

Fonte: El País
Foto: Ivan Alvarado/ Reuters