Sensor biodegradável desenvolvido pelo IFSC/USP, Unicamp e Espanha pode transformar o monitoramento da poluição do ar

A pesquisa do sensor foi liderada pelo professor Valmor Mastelaro, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), em colaboração com pesquisadores da Unicamp e da Espanha, e foi publicada na revista científica internacional Microchemical Journal.
A pesquisa do sensor foi liderada pelo professor Valmor Mastelaro, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), em colaboração com pesquisadores da Unicamp e da Espanha, e foi publicada na revista científica internacional Microchemical Journal.

Tecnologia desenvolvida por cientistas brasileiros e espanhóis utiliza sensor de papel e grafeno para detectar dióxido de nitrogênio com baixo custo, alta eficiência e sem gerar lixo eletrônico

Pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), da Unicamp e de instituições da Espanha desenvolveram uma tecnologia que pode representar um avanço importante no combate à poluição atmosférica. Trata-se de um sensor biodegradável feito de papel, capaz de identificar a presença de dióxido de nitrogênio (NO₂), um dos poluentes mais prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente.

O novo dispositivo combina baixo custo de produção, flexibilidade, sustentabilidade e boa precisão, oferecendo uma alternativa aos sensores eletrônicos convencionais, que costumam ser mais caros e geram resíduos eletrônicos ao final da vida útil.

Como funciona o sensor de papel

A tecnologia utiliza uma folha de papel de celulose revestida por uma fina camada de grafeno reduzido, material conhecido pela excelente capacidade de conduzir eletricidade e por alterar suas propriedades quando entra em contato com moléculas de dióxido de nitrogênio.

Segundo os pesquisadores, a fabricação do sensor não exige equipamentos complexos, permitindo uma produção em larga escala com custo reduzido.

Durante os experimentos, a configuração considerada ideal passou por 20 etapas de impregnação do papel, proporcionando elevada sensibilidade para detectar pequenas concentrações do poluente, tudo isso em temperatura ambiente e sem necessidade de aquecimento ou alto consumo de energia.

Sensor identifica principalmente o dióxido de nitrogênio

Outro destaque da pesquisa é a capacidade de o dispositivo diferenciar o NO₂ de outros gases presentes na atmosfera.

Nos testes realizados, o sensor apresentou baixa interferência de substâncias como:

  • Monóxido de carbono;
  • Amônia;
  • Sulfeto de hidrogênio;
  • Ozônio.

Além disso, manteve desempenho estável durante quase um mês e apresentou resultados consistentes entre diferentes unidades produzidas pelo mesmo método, indicando boa confiabilidade para futuras aplicações.

Tecnologia resiste até mesmo à flexão

Os pesquisadores também verificaram que o equipamento continua funcionando normalmente mesmo após sucessivas dobras, característica importante para aplicações em dispositivos flexíveis, portáteis e até mesmo vestíveis.

Outro fator observado foi que a presença de umidade favorece a capacidade de detecção do gás, tornando o sensor especialmente adequado para uso em ambientes externos.

Menos lixo eletrônico e mais sustentabilidade

Um dos principais diferenciais da pesquisa está no impacto ambiental.

Enquanto sensores tradicionais utilizam componentes eletrônicos de difícil reciclagem, o novo dispositivo é produzido sobre papel e pode se degradar rapidamente quando descartado em água, reduzindo significativamente a geração de lixo eletrônico.

Essa característica pode ser decisiva para a implantação de grandes redes de monitoramento ambiental compostas por milhares de sensores distribuídos em áreas urbanas.

Aplicações podem chegar às cidades inteligentes

Os pesquisadores acreditam que a tecnologia possui potencial para diversas aplicações nos próximos anos.

Entre elas estão:

  • monitoramento da qualidade do ar em cidades inteligentes;
  • instalação em postes, semáforos e pontos de ônibus;
  • acompanhamento ambiental em áreas industriais;
  • uso em equipamentos portáteis;
  • integração a dispositivos vestíveis para pessoas com doenças respiratórias.

Na saúde pública, os dados coletados poderão auxiliar órgãos ambientais na emissão de alertas sobre episódios de maior concentração de poluentes e contribuir para políticas voltadas à melhoria da qualidade do ar.

O que é o dióxido de nitrogênio (NO₂)?

O dióxido de nitrogênio é um gás de coloração castanho-avermelhada, com odor forte e irritante, considerado um dos principais poluentes atmosféricos produzidos pelas atividades humanas.

As principais fontes de emissão são:

  • motores de automóveis, caminhões e ônibus;
  • usinas termoelétricas;
  • processos industriais;
  • queimadas e incêndios florestais;
  • fogões e aquecedores a gás em ambientes pouco ventilados.

Quais os riscos para a saúde?

A exposição frequente ao NO₂ pode provocar diversos problemas respiratórios, entre eles:

  • irritação nos olhos, nariz e garganta;
  • tosse persistente;
  • dificuldade para respirar;
  • agravamento da asma;
  • piora da bronquite;
  • redução da função pulmonar;
  • aumento da predisposição a infecções respiratórias.

Os grupos mais vulneráveis incluem crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.

Poluição também afeta o meio ambiente

Além dos impactos à saúde, o dióxido de nitrogênio participa da formação do chamado smog fotoquímico, contribui para a ocorrência de chuva ácida e favorece a formação de partículas finas (PM₂,₅), consideradas altamente prejudiciais ao sistema respiratório.

Esses efeitos também causam danos à vegetação e aos ecossistemas.

Pesquisa busca equilíbrio entre eficiência e sustentabilidade

Os responsáveis pelo estudo destacam que o objetivo não era desenvolver o sensor mais sensível já existente, mas criar uma solução que reunisse boa capacidade de detecção, baixo custo, facilidade de fabricação, flexibilidade e sustentabilidade ambiental.

O trabalho demonstra que materiais simples e biodegradáveis podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento das futuras tecnologias de monitoramento ambiental.

A pesquisa foi liderada pelo professor Valmor Mastelaro, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), em colaboração com pesquisadores da Unicamp e da Espanha, e foi publicada na revista científica internacional Microchemical Journal.

Com informações de Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP.