
A Prefeitura de São Carlos realizou, nesta quarta-feira (19), a primeira reunião do Grupo de Trabalho em Mudanças Climáticas, criado para discutir os possíveis impactos de um chamado super El Niño e estruturar medidas de adaptação para o município.
O encontro, realizado no Paço Municipal, reuniu pesquisadores da UFSCar, USP, Embrapa Instrumentação e Embrapa Pecuária Sudeste, além de representantes de secretarias municipais e do SAAE. Entre os principais pontos discutidos estão os efeitos econômicos das mudanças climáticas e a necessidade de antecipar ações para enfrentar períodos de seca, chuvas intensas, enchentes, erosões e ondas de calor.
El Niño: Mudanças climáticas podem ter impacto bilionário em São Carlos
Integrante do grupo, o professor Eduardo Mário Mendiondo, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), destacou que o município possui uma concentração diferenciada de universidades e centros de pesquisa, mas também enfrenta consequências de décadas de degradação de recursos naturais, envolvendo água, solo e infraestrutura.
Com a intensificação dos eventos associados às mudanças climáticas, o pesquisador considera que São Carlos tem uma oportunidade para ampliar investimentos em mitigação e adaptação.
Segundo Mendiondo, a falta histórica de investimentos em serviços ambientais como política prioritária representa um potencial econômico não aproveitado estimado em cerca de R$ 6 bilhões por ano.
“São Carlos perdeu de investir em serviços ambientais como política prioritária e isso se traduz hoje em não conseguir colocar na economia em torno de mais 6 bilhões de reais por ano”, afirmou.
De acordo com os dados apresentados durante a reunião, esse montante representaria um acréscimo superior a 40% em relação ao PIB atual do município, estimado em aproximadamente R$ 14 bilhões.
USP e UFSCar terão encontro nacional sobre águas urbanas
O debate deverá ganhar dimensão nacional em setembro. Entre os dias 21 e 25 de setembro, USP e UFSCar vão sediar o Encontro Nacional de Águas Urbanas e o Simpósio de Revitalização de Rios Urbanos, com participação de especialistas brasileiros e estrangeiros.
Para Mendiondo, a proposta é transformar o conhecimento científico produzido no município em ações concretas.
“Dessa maneira saímos de uma visão de somente levantar problemas ou criar conhecimento e partimos para uma agenda proativa de ação, de obra, de riqueza, de qualidade de vida”, disse.
Pesquisador propõe criação de “gabinete de risco”
O pesquisador Sílvio Crestana, da Embrapa Instrumentação, defendeu que São Carlos se prepare antecipadamente para os possíveis efeitos de um El Niño de forte intensidade.
Entre os problemas que poderiam ocorrer estão secas severas, chuvas intensas, enchentes, erosão do solo, prejuízos às plantações e dificuldades para alimentação dos rebanhos, com consequências para a produção de alimentos, economia e saúde da população.
Crestana sugeriu a criação de um “gabinete de risco”, que atuaria antes da ocorrência de situações extremas.
“Uma das sugestões é que se crie um gabinete de risco, ao invés, por exemplo, de um gabinete de crise, que é o que normalmente se faz, porque a crise é algo que já aconteceu”, explicou.
Para o pesquisador, ações municipais e regionais podem oferecer respostas mais rápidas aos impactos sentidos diretamente pela população, como problemas relacionados a emprego, moradia, saúde e produção agrícola.
Arborização é apontada como ferramenta contra ilhas de calor
A diretora do Departamento de Gestão Ambiental e Climática da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal, Giovana Galetti, apresentou as medidas que já estão sendo adotadas pelo município.
Entre elas está o Plano de Arborização Urbana, elaborado a partir de um diagnóstico que identificou as regiões menos arborizadas de São Carlos e sua relação com as ilhas de calor.
“As ilhas de calor, as ondas de calor e até mesmo as ondas de frio podem ser minimizadas com o plantio de árvores”, afirmou.
A Prefeitura também está contratando um Inventário de Gases de Efeito Estufa, que deverá fornecer dados para a elaboração de novas políticas e projetos relacionados às mudanças climáticas.
Enchentes e drenagem entram no planejamento
Outro ponto considerado prioritário é a drenagem urbana. O gerente de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais do SAAE São Carlos, Eduardo Casado, destacou que os efeitos dos eventos extremos já são percebidos pela população durante episódios de chuva forte, principalmente na região central, que possui problemas históricos de drenagem.
Segundo Casado, o SAAE trabalha em duas frentes. Uma delas envolve planejamento de médio e longo prazo, com projetos direcionados às diferentes bacias hidrográficas do município.
Paralelamente, são realizadas intervenções imediatas, como limpeza de bocas de lobo e galerias, desassoreamento e ações de controle de erosão nos rios urbanos.
São Carlos pretende buscar recursos para obras de adaptação
O assessor do prefeito Netto Donato, José Galízia Tundisi, explicou que o encontro desta quarta-feira representa apenas a primeira etapa do trabalho.
Uma nova reunião está prevista para 14 de setembro, envolvendo Prefeitura, UFSCar, USP e Embrapa, com foco específico nos possíveis impactos de um super El Niño em São Carlos.
A intenção é utilizar os estudos e discussões para elaborar um projeto de grande porte a ser apresentado à Caixa Econômica Federal, buscando recursos para intervenções de adaptação.
“Pretendemos elaborar um projeto de grande porte para apresentar à Caixa Econômica Federal, que possui recursos disponíveis para ações relacionadas a esse grande El Niño, no sentido de promover adaptações no município em relação a enchentes, precipitações, secas e também aos impactos na saúde humana”, afirmou Tundisi.
O assessor também pretende ampliar a discussão para outros municípios da região. Nesta quinta-feira (20), ele participa de uma palestra para representantes de 21 cidades da Associação Paulista de Municípios, reunidos no Hotel Nacional.
Com a participação de universidades, centros de pesquisa e poder público, o grupo pretende transformar o conhecimento científico existente em São Carlos em planejamento preventivo, buscando reduzir prejuízos econômicos e sociais provocados por eventos climáticos extremos.












