Tecnologia criada pela USP de São Carlos chega ao SUS para tratar câncer de pele

Tecnologia criada pela USP de São Carlos chega ao SUS para tratar câncer de pele
Tecnologia criada pela USP de São Carlos chega ao SUS para tratar câncer de pele

Uma tecnologia desenvolvida no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC/USP) acaba de alcançar um marco histórico para a ciência brasileira. Após quase duas décadas de pesquisas, a terapia fotodinâmica destinada ao tratamento de dois tipos de câncer de pele foi oficialmente regulamentada para utilização no Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando as possibilidades de atendimento à população.

A medida foi estabelecida pelo Ministério da Saúde por meio da Portaria GM/MS nº 12.305, publicada na última semana de outubro de 2026. A regulamentação representa um avanço importante para a saúde pública e consolida o trabalho de pesquisadores brasileiros que desenvolveram uma alternativa menos invasiva para determinados casos da doença.

A tecnologia é resultado de pesquisas lideradas pelo professor Vanderlei Bagnato, do IFSC/USP, em colaboração com instituições como o Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, e o Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro.

Embora a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) já tivesse emitido parecer favorável em 2023, ainda era necessária a regulamentação das condições de financiamento e utilização da técnica na rede pública.

Com essa etapa concluída, a terapia passa a contar com condições formais para sua oferta pelo SUS, embora a disponibilização aos pacientes dependa da estruturação dos serviços de saúde.

Como funciona a terapia fotodinâmica desenvolvida em São Carlos?

Diferentemente de procedimentos cirúrgicos convencionais, a terapia fotodinâmica utiliza a combinação de um medicamento fotossensibilizante e uma fonte específica de luz para combater células cancerosas.

O tratamento começa com a aplicação de um creme na região afetada. Após um período necessário para a absorção da substância, a área recebe iluminação produzida por um equipamento desenvolvido especialmente para o procedimento.

A interação entre a luz e o medicamento desencadeia reações que provocam a destruição das células tumorais, buscando preservar os tecidos saudáveis ao redor.

Uma das principais vantagens é a possibilidade de tratar determinadas lesões superficiais sem necessidade de cirurgia.

A alternativa pode ser especialmente relevante para pacientes idosos, diabéticos ou pessoas que apresentam maior risco em procedimentos cirúrgicos.

Além de ser menos invasiva, a técnica apresenta potencial para reduzir custos hospitalares, diminuir a demanda por cirurgias e contribuir para a redução das filas de atendimento especializado.

A indicação, entretanto, depende das características de cada lesão e da avaliação médica.

	Tecnologia desenvolvida no Instituto de Física de São Carlos da USP utiliza terapia fotodinâmica para tratar câncer de pele no SUS
Tecnologia desenvolvida no Instituto de Física de São Carlos da USP utiliza terapia fotodinâmica para tratar câncer de pele no SUS

Tecnologia brasileira poderá beneficiar pacientes do SUS

Um dos aspectos mais importantes da conquista é que a tecnologia foi desenvolvida integralmente no Brasil, incluindo medicamentos, equipamentos e sistemas de iluminação utilizados durante o tratamento.

O trabalho conduzido pelo IFSC/USP não ficou restrito à pesquisa acadêmica. Também envolveu o desenvolvimento de condições para que empresas brasileiras pudessem fabricar os equipamentos e materiais necessários à aplicação da terapia.

Segundo o professor Vanderlei Bagnato, a tecnologia nacional já começou a despertar interesse internacional.

“Temos uma tecnologia integralmente nacional e acreditamos que o Brasil poderá exportar esse conhecimento para outros países, algo que já teve o seu início”, destacou o pesquisador.

A conquista demonstra como o investimento em pesquisa científica pode estimular a indústria brasileira, gerar inovação e produzir benefícios concretos para a população.

SUS terá procedimento de R$ 1.159,11 por atendimento

Com a regulamentação, a terapia fotodinâmica passa a integrar a tabela de procedimentos do SUS, com financiamento pelo Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (FAEC).

O valor estabelecido é de R$ 1.159,11 por atendimento, com previsão de realização em regime ambulatorial para pacientes com idade igual ou superior a 18 anos.

A aplicação da tecnologia poderá envolver dermatologistas, cancerologistas cirúrgicos, cirurgiões gerais e profissionais de enfermagem devidamente capacitados.

A incorporação representa um avanço na organização do tratamento, mas não significa que todas as unidades do SUS já estejam preparadas para oferecer o procedimento.

A disponibilidade dependerá da implantação dos serviços, da estrutura necessária e da capacitação dos profissionais responsáveis.

Santa Casa de São Carlos poderá integrar rede de tratamento

São Carlos também poderá desempenhar um papel importante na aplicação da tecnologia desenvolvida na própria cidade.

O IFSC/USP trabalha na estruturação de centros especializados, e a Santa Casa de Misericórdia de São Carlos está entre as instituições previstas para integrar a rede de atendimento, juntamente com o Hospital Amaral Carvalho, em Jaú.

Paralelamente, está em desenvolvimento um programa nacional de capacitação, com atividades presenciais e a distância, para preparar profissionais de saúde para a utilização segura e adequada da terapia fotodinâmica.

A expectativa é que a formação de equipes especializadas contribua para ampliar gradualmente o acesso ao tratamento em diferentes regiões do país.

Pesquisa do IFSC/USP envolveu universidades, hospitais e empresas

O desenvolvimento da tecnologia é resultado de um trabalho coletivo que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, instituições científicas e empresas brasileiras.

Entre os colaboradores mencionados pelo professor Vanderlei Bagnato estão C. Kurachi, G. Salvio, N. Inada, L. Moriyama, H. Buzza, D. Bonini e M. Stringasci, além de outros profissionais envolvidos nas diferentes etapas do projeto.

A iniciativa também contou com o apoio de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Essas parcerias foram fundamentais para transformar o conhecimento produzido nos laboratórios em uma tecnologia com aplicação na saúde pública.

No Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CEPOF), sediado no IFSC/USP, mais de 15 projetos continuam investigando novas aplicações da terapia fotodinâmica.

As pesquisas incluem possibilidades de utilização contra infecções, microrganismos resistentes a antibióticos e até pragas agrícolas.

Ciência desenvolvida em São Carlos ganha dimensão nacional

A incorporação da terapia fotodinâmica ao SUS representa mais do que o reconhecimento de uma descoberta científica. É também um exemplo da capacidade das universidades públicas brasileiras de desenvolver tecnologias que podem transformar a vida das pessoas.

O que começou há quase 20 anos nos laboratórios do Instituto de Física de São Carlos chega agora a uma nova etapa, com a possibilidade de utilização regular no sistema público de saúde.

Para São Carlos, cidade reconhecida por sua tradição universitária e científica, a conquista reforça a importância das instituições de pesquisa instaladas no município e sua contribuição para o desenvolvimento tecnológico nacional.

O trabalho liderado pelo professor Vanderlei Bagnato demonstra que pesquisas de longo prazo, associadas à cooperação entre universidades, hospitais, empresas e órgãos de financiamento, podem resultar em soluções de interesse público.

A chegada dessa tecnologia ao SUS também evidencia a importância da continuidade dos investimentos em ciência e inovação, especialmente em áreas diretamente relacionadas à saúde e à qualidade de vida da população.

Com informações de Rui Sintra/IFSC/USP.

Documento oficial: Confira a Portaria GM/MS nº 12.305, disponibilizada pelo Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP).

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