O dia em que um temporal nos fez encarar a realidade

Um temporal devastador provou que há acontecimentos que passam pelo noticiário e desaparecem no dia seguinte. Outros permanecem. Não apenas pelos estragos que deixam para trás, mas porque nos obrigam a olhar para uma realidade que, muitas vezes, preferimos ignorar.
Um temporal devastador provou que há acontecimentos que passam pelo noticiário e desaparecem no dia seguinte. Outros permanecem. Não apenas pelos estragos que deixam para trás, mas porque nos obrigam a olhar para uma realidade que, muitas vezes, preferimos ignorar.

Um temporal devastador provou que há acontecimentos que passam pelo noticiário e desaparecem no dia seguinte. Outros permanecem. Não apenas pelos estragos que deixam para trás, mas porque nos obrigam a olhar para uma realidade que, muitas vezes, preferimos ignorar.

A tempestade que atingiu Ribeirão Preto e cidades da região não foi apenas mais um temporal de inverno. Foi um choque de realidade.

Em poucas horas, mais de 115 mil imóveis ficaram sem energia elétrica. Hospitais precisaram recorrer a geradores. Escolas suspenderam as aulas. O abastecimento de água foi comprometido em diversos bairros. Árvores centenárias vieram abaixo, avenidas ficaram bloqueadas e uma família perdeu um ente querido quando parte de uma estrutura desabou sobre uma residência.

É impossível ler uma sequência de acontecimentos como este temporal sem sentir um aperto no peito.

Quem vive no interior paulista sempre se acostumou a ouvir que esta é uma região privilegiada, distante de furacões, terremotos e grandes catástrofes naturais. Durante décadas, acreditamos que os eventos extremos aconteciam “em outros lugares”. Hoje, essa certeza já não existe.

Os últimos anos têm mostrado um cenário diferente. Ondas de calor cada vez mais intensas. Longos períodos de estiagem. Chuvas concentradas em poucos minutos. Rajadas de vento que derrubam árvores saudáveis, destroem telhados e deixam cidades inteiras às escuras.

Será coincidência?

A ciência responde que não é tão simples. Nenhuma tempestade, isoladamente, pode ser atribuída às mudanças climáticas. Mas também é a própria ciência que afirma, com base em décadas de pesquisa, que o aquecimento global aumenta a energia disponível na atmosfera e favorece a ocorrência de eventos extremos mais intensos em diversas partes do planeta.

Negar isso hoje é fechar os olhos para o que acontece do lado de fora da janela.

Talvez o mais preocupante seja perceber como estamos nos acostumando. Uma enchente aqui. Um vendaval ali. Recordes de temperatura todos os anos. Como se tudo isso passasse a fazer parte da rotina.

Não deveria.

Cada árvore arrancada do chão representa anos de crescimento perdidos em segundos. Cada poste derrubado revela a fragilidade da infraestrutura urbana. Cada família que passa horas sem energia, água ou atendimento médico experimenta um pouco do que especialistas vêm alertando há muito tempo: nossas cidades não foram planejadas para enfrentar um clima que está mudando.

E não basta cobrar apenas dos governantes, embora seja obrigação do poder público investir em prevenção, drenagem, arborização adequada, sistemas de alerta e redes elétricas mais resilientes.

Também precisamos rever hábitos, proteger áreas verdes, preservar nascentes, reduzir desperdícios e compreender que sustentabilidade deixou de ser um discurso bonito para se tornar uma necessidade de sobrevivência.

As mudanças climáticas não têm partido político, o temporal não vota, quem vota é a pessoa que foi atingida e muitas vezes escolhe mal, pois elege quem diz que as mudanças do clima não existem, que a ciência é mentirosa. As castátrofes climáticas não escolhem classe social. Não perguntam em quem você votou nem qual é a sua profissão. Por isso, é importante ter consciência e escolher bem.

As tempestades atingem ricos e pobres. O comerciante que perde o estoque. O agricultor que vê sua produção comprometida. O motorista preso em uma avenida alagada. O paciente que depende de energia para um equipamento médico. A família que perde alguém em uma tragédia.

Todos.

O temporal que devastou parte da região de Ribeirão Preto certamente passará para a história pelos prejuízos e pela dor que deixou. Mas seria um erro tratá-lo apenas como mais um desastre isolado.

Ele é um aviso.

E avisos têm uma característica importante: podem ser ignorados. Mas ignorá-los nunca impede que o problema volte a acontecer.

A pergunta que fica é simples, embora incômoda: quando o próximo evento extremo chegar — porque ele chegará — estaremos mais preparados ou continuaremos reagindo apenas depois que o vento já tiver levado tudo?

Que a resposta não venha apenas na próxima manchete.

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