
Uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveu uma tecnologia que poderá contribuir para reduzir a necessidade de procedimentos invasivos em recém-nascidos. O aplicativo Smart Neocare, criado para estimar os níveis de hemoglobina dos bebês por meio de fotografias dos dedos das mãos, obteve recentemente o registro de programa de computador no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
A inovação representa um avanço promissor nas pesquisas voltadas à saúde neonatal, especialmente pela possibilidade de avaliar um importante indicador sanguíneo sem a necessidade de realizar uma coleta de sangue para cada estimativa.
O projeto foi coordenado pela professora Cristina Ortiz Valete, do Departamento de Medicina (DMed) da UFSCar, e desenvolvido em parceria com instituições de pesquisa e tecnologia de São Paulo.
Como funciona o aplicativo Smart Neocare desenvolvido pela UFSCar?
O Smart Neocare utiliza a câmera de um telefone celular para fotografar um dos dedos do recém-nascido. A partir da coloração registrada na imagem, um algoritmo realiza uma análise e estima a concentração de hemoglobina no sangue.
A tecnologia funciona por meio da comparação das características de cor identificadas na fotografia com informações previamente armazenadas em um banco de dados.
Segundo a professora Cristina Valete, o sistema foi desenvolvido para permitir a estimativa dos níveis de hemoglobina sem a realização de uma coleta sanguínea.
“O algoritmo compara a cor obtida com a estimativa de hemoglobina que ele tem no banco de dados e faz a estimativa do seu valor”, explica a pesquisadora.
De acordo com os resultados apresentados pela equipe, o modelo desenvolvido alcançou sensibilidade e especificidade de 95% na comparação com exames de sangue.
Embora os indicadores sejam promissores, a tecnologia ainda deverá passar por uma nova etapa de validação antes que sua utilização clínica possa ser considerada consolidada.
Tecnologia pode ajudar a reduzir procedimentos dolorosos em bebês
Atualmente, a avaliação dos níveis de hemoglobina é tradicionalmente realizada por meio de exames laboratoriais que exigem a coleta de sangue.
Em recém-nascidos, especialmente aqueles que necessitam de acompanhamento frequente, esses procedimentos podem provocar dor e desconforto.
A possibilidade de estimar os níveis da proteína utilizando apenas uma fotografia representa uma alternativa que poderá contribuir para tornar o acompanhamento neonatal menos invasivo.
A professora Cristina Valete, que atua como neonatologista e pesquisadora nas áreas de dor e anemia neonatal, explica que a ideia surgiu a partir de investigações anteriores realizadas com adultos.
“Como neonatologista e pesquisadora em dor e anemia neonatal, a partir de outros estudos desenvolvidos em adultos, tive a ideia de investigar se seria possível, pela coloração dos dedos das mãos, estimar a concentração de hemoglobina dos bebês”, relata.
Por que a hemoglobina é importante para a saúde dos recém-nascidos?
A hemoglobina é uma proteína presente nas hemácias, também conhecidas como glóbulos vermelhos, responsáveis pelo transporte de oxigênio pelo organismo.
O ferro desempenha um papel fundamental na produção dessa proteína, sendo essencial para a manutenção de níveis adequados de hemoglobina.
Quando sua concentração está reduzida, pode haver comprometimento do transporte de oxigênio para os tecidos, condição que exige avaliação médica.
“O oxigênio no nosso organismo é carregado pela hemoglobina, daí a importância da sua dosagem. Quando há redução da hemoglobina, a oxigenação tecidual pode estar comprometida”, esclarece Cristina Valete.
A avaliação da hemoglobina é importante na investigação de anemia e de outras condições clínicas que podem afetar os recém-nascidos.
É importante destacar que o aplicativo estima a concentração de hemoglobina, mas não estabelece, isoladamente, um diagnóstico de anemia.
Pesquisa da UFSCar reúne instituições científicas e tecnológicas
O desenvolvimento do Smart Neocare contou com uma colaboração entre diferentes instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
Além da UFSCar, participaram do projeto:
- Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Jacareí;
- Instituto de Estudos Avançados do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira (FAB);
- Departamento de Engenharia Eletrônica Aplicada do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
A parceria reuniu conhecimentos das áreas de medicina, engenharia e tecnologia para desenvolver uma ferramenta voltada à saúde dos recém-nascidos.
Aplicativo registrado no INPI passará por validação em 2027
O registro do Smart Neocare no Instituto Nacional da Propriedade Industrial representa uma etapa importante na proteção da propriedade intelectual do programa de computador.
Entretanto, o registro não equivale à autorização para uso clínico nem comprova, por si só, a eficácia diagnóstica da ferramenta.
O próximo passo será a realização de novos testes para validação do modelo, com previsão de início em 2027.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar, sob o registro CAAE 45505621.6.0000.5504.
Caso os resultados sejam confirmados nas próximas etapas de investigação, a tecnologia poderá abrir novas possibilidades para o acompanhamento de recém-nascidos, oferecendo aos profissionais de saúde uma ferramenta complementar de avaliação, com potencial para reduzir procedimentos invasivos.
O desenvolvimento também reforça a participação da UFSCar, sediada em São Carlos, na produção de pesquisas que integram medicina, ciência e inovação tecnológica.
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