A lição mais bonita da eleição veio da seção 52 da Zona Eleitoral 410 em São Carlos

Voto na seção 52 da 410ª Zona Eleitoral, instalada na Escola Arlindo Bittencourt, em São Carlos, há mais de 30 anos. É quase um ritual. A gente chega, encontra alguns rostos conhecidos, espera alguns minutos, apresenta o documento, aperta os números na urna e vai embora com aquela sensação simples de dever cumprido.

Normalmente, tudo não leva mais do que 15 ou 20 minutos.

Mas neste domingo, 4 de outubro de 2026, foi diferente.

Houve um problema com a urna da minha seção e o equipamento precisou ser substituído. Coisas que podem acontecer em uma eleição. O imprevisto acabou provocando atraso e, quando cheguei à escola, por volta das 10h, encontrei uma fila enorme.

E não era apenas na minha seção.

A escola estava cheia. Muita gente havia decidido votar naquele período e, na seção 52, o problema com a urna tornava a espera ainda maior.

A Justiça Eleitoral, corretamente, dava prioridade aos idosos e às pessoas com deficiência. Isso significava que quem estava na fila comum teria de esperar ainda mais.

E esperou.

Porque cidadania também é isso. Não é apenas apertar os botões de uma urna. É entender que existem pessoas que precisam passar na nossa frente. É compreender que o direito do outro não diminui o nosso. Talvez até o engrandeça.

O tempo foi passando.

Uma hora.

Duas horas.

A fila avançava a passos de tartaruga.

E então apareceu uma característica que, mesmo nos momentos mais cansativos, parece acompanhar o brasileiro: o bom humor.

Um dizia que o almoço iria atrasar. Outro já previa que o churrasco sairia no meio da tarde. Alguém brincou que, daquele jeito, a sobremesa seria servida no jantar.

Risos aqui, reclamações acolá, olhares constantes para o relógio.

Até que chegou minha vez.

Depois de mais de duas horas esperando, eu estava finalmente diante da porta da seção. Faltava muito pouco para votar.

Foi quando apareceu um senhor.

Devia ter mais de 60 anos. Chegou discretamente, quase pedindo licença até para perguntar. Aproximou-se de um dos jovens que trabalhavam na eleição e disse:

“Uma pessoa com necessidades especiais e cadeirante pode votar aqui mais rápido?”

A resposta veio imediatamente:

“Claro que sim! Ela é a próxima!”

O rapaz então veio até mim e perguntou se eu permitiria que aquela mulher votasse antes.

Claro que sim.

Depois de duas horas, o que seriam mais alguns minutos?

Mas eu ainda não sabia que aqueles poucos minutos seriam justamente a parte daquele domingo que eu levaria comigo para casa.

O senhor voltou e apareceu empurrando uma cadeira de rodas.

Nela estava uma mulher que, provavelmente, era sua esposa.

E havia alguma coisa naquela cena que fez toda aquela espera perder importância.

Ela estava arrumada. Bonita. Preparada para aquele momento. Apesar das dificuldades impostas pela vida, tinha saído de casa naquele domingo porque queria votar.

Ela fazia questão de estar ali.

Fazia questão de exercer seu direito.

O marido conduziu a cadeira até a urna. Ficou ao lado dela. Ajudou no que era necessário. Acompanhou cada movimento com a paciência de quem talvez já tenha repetido aquele gesto tantas outras vezes, em tantas outras situações da vida.

E foi impossível não perceber que ali acontecia algo muito maior do que uma votação.

Ali estava o companheirismo.

Daquele verdadeiro.

O que não precisa de discursos.

O que empurra uma cadeira quando as pernas já não podem caminhar. O que acompanha quando o caminho se torna difícil. O que não abandona quando aquilo que para tantos é simples passa a exigir esforço, planejamento e coragem.

Ela votou.

Cumpriu aquilo que tinha ido fazer.

Depois, agradeceu às pessoas que permitiram que passasse à frente. O marido também agradeceu. Estava visivelmente emocionado.

E havia algo diferente até no semblante das pessoas que trabalhavam naquela seção eleitoral.

Era como se todos tivéssemos entendido, ao mesmo tempo, que havíamos acabado de presenciar alguma coisa bonita.

Uma espécie de missão cumprida.

Não apenas a missão da Justiça Eleitoral de garantir que uma cidadã pudesse votar.

A missão de todos nós de permitir que ela exercesse esse direito com dignidade.

Passei mais de duas horas naquela fila.

Poderia ter voltado para casa reclamando da demora, do problema na urna, do almoço atrasado ou do domingo perdido esperando para votar.

Mas voltei pensando naquele casal.

Naquela mulher diante da urna.

Naquele homem ao lado dela.

E em como algumas das maiores lições aparecem justamente quando nossos planos dão errado.

Neste domingo, uma urna apresentou problema e uma fila demorou muito mais do que deveria.

Mas naquela mesma fila aprendemos que cidadania não termina quando apertamos “CONFIRMA”.

Ela começa também quando somos capazes de olhar para quem está ao nosso lado.

Quando esperamos.

Quando cedemos a vez.

Quando ajudamos.

Quando entendemos as dificuldades do outro.

E quando alguém, apesar de todas as limitações que a vida colocou em seu caminho, faz questão de sair de casa para dizer, por meio do voto:

“Eu também faço parte desta sociedade.”

Talvez tenha sido preciso esperar mais de duas horas para votar.

Para aprender aquela lição, porém, valeu cada minuto.

Renato Chimirri