
Eles saíram de São Carlos cedo, confiantes de que em Cabaceiras teriam a melhor pescaria da temporada. O céu ainda parecia firme, mas o rio já os observava com olhos turvos. Montaram as varas, riram, abriram as latas de cerveja. A calmaria era enganosa.
O primeiro trovão não foi apenas som, foi um aviso. O vento ergueu o mato às margens, e as árvores pareciam se contorcer, como se quisessem expulsá-los dali. O grupo tentou retornar, mas o caminho de volta se retorcia em curvas desconhecidas. O rio os havia engolido.
No meio da tormenta, avistaram uma cabana. A madeira estava úmida, enegrecida, mas uma chama bruxuleava lá dentro, como se alguém esperasse por eles. Buscando abrigo, empurraram a porta — e encontraram a cena que nenhum deles esqueceria.
Esqueletos.
Não ossadas abandonadas no chão, mas esqueletos sentados à mesa, como convidados eternos de um banquete interrompido. Alguns tinham ainda fiapos de roupa grudados aos ossos. Em frente a cada um, pratos ocos, copos ainda erguidos como se brindassem a algo invisível.
O silêncio foi quebrado por um som impossível: um ranger de ossos. Uma das caveiras moveu lentamente a cabeça na direção deles. Outra bateu os dentes como se mastigasse o vazio. O mais jovem do grupo soltou um grito e, naquele instante, a porta se fechou sozinha, com força.
O ar da cabana cheirava a podridão úmida e lembrava carne que nunca apodrece. O medo queimava dentro deles. Derrubaram cadeiras, abriram a porta à força e correram, com a chuva cortando seus rostos, jurando que ouviam passos atrás de si, secos e arrastados.
Chegaram à estrada sem saber como. E ninguém teve coragem de falar sobre o que viu, até que os dias ensolarados voltaram. Então, ainda com medo, decidiram retornar.
Seguiram as mesmas margens, marcaram cada passo. Mas no ponto exato onde juravam ter visto a cabana, não havia nada. Apenas árvores cerradas, raízes antigas e silêncio. Nem uma tábua, nem um pedaço de vidro, nem pegadas.
— O rio não deixa rastros — murmurou um deles.
E nunca mais voltaram.
O que se comenta em Cabaceiras até hoje é que o Mogi Guaçu não dá só peixes. Ele também pesca homens.
*Lenda contada por um pescador do Mogi.









