Coluna Onda Esportiva: O dia em que um time do interior de SP jogou na Coreia do Norte

Um jogo para a história. Foto: Waldir Cipriani

Por Olavo Villas Boas

 

O ano era 2009, restando apenas um ano para a disputa da Copa do Mundo na África do Sul em 2010, a  Coreia do Norte havia garantido sua classificação, e iniciava os preparativos finais.
Na mesma década, um reverendo norte coreano chamado Sun Myung Moon, que possuia um passado controverso, desembarcava no Brasil.

O reverendo Moon chegou a ser preso por sonegação fiscal nos Estados Unidos, por cerca de um ano, e respondeu por processos parecidos no Brasil, chegando até a ser alvo de uma CPI, após chegar ao estado do Mato Grosso do Sul, que julgou conveniente se aliar aos empreendimentos do reverendo que. Fundou sua própria igreja, a Igreja da Unificação, que angariou milhões de seguidores, chegando a ser acusado de lavagem cerebral, com bizarros relatos de que servia vinho misturado ao seu sangue.
Feita a apresentação, eis a conexão com o futebol brasileiro: o reverendo Moon, que trazia um discurso de paz, começou a investir em dois times Brasileiros: o Cene-MS e o finado Atlético Sorocaba.

O investimento foi alto, o time sorocabano ganhou um CT de primeiro mundo, com quatro campos, dois hotéis, piscina aquecida, e até um lago no terreno. A estrutura era tão boa que chegou a receber a delegação da Argélia para a Copa do Mundo de 2014.
Os resultados vieram rápido, o time saiu da terceira divisão paulista em 2001, e chegou à primeira em 2003, porém, ao final da década, o reverendo Moon teria planos audaciosos pro clube, intermediando uma série de amistosos com a seleção norte coreana, e assim começa a aventura do Atlético Sorocaba.

O time teve acesso à Coreia do Norte pela China, no caso, a única via aérea até o pais, e em um avião, de acordo com relatos dos atletas e comissão técnica, “remendado”.

– “Você já viu avião com Durepoxi?
Eu vi!” – disse Passarinho, ex-massagista do clube.

Os jogadores tiveram celulares e passaportes confiscados no aeroporto de Pyongyang, tiveram que fazer reverência além de depositar flores em um monumento de Kim Il Sung (avô do atual lider Kim Jong-Un).

Durante o treinamento, a delegação se impressionou com a imponência e estrutura do estádio e foi observada a todo tempo pela seleção norte coreana, no entanto, no momento do treinamento dos donos da casa, o time brasileiro teve que sair.

E agora, o mais impressionante. Ao chegar ao estádio no dia do jogo, os jogadores e comissão técnica notaram uma estranha aglomeração ao redor de estadio, ali havia em média 30 mil pessoas que não haviam conseguido entrar.
Ao entrar em campo, o time se deparou com 80 mil torcedores presentes no estádio, isso mesmo, 80 mil.

Confusos, os jogadores se deram conta de que na nomenclatura do placar e nos anúncios do jogo, estava escrito “Brasil”, e a sigla BRA nos placares.

O povo norte coreano achava que ali estava a seleção brasileira, e o uniforme amarelo do Atlético Sorocaba respaldava o engano.

Os atletas relataram momentos curiosos, como por exemplo, um silêncio absoluto no estádio, quando o time possuía a bola, já nos momentos de ataque do time anfitrião, a torcida explodia.

Preocupado com sua segurança, caso vencessem a partida, o time jogou preocupado e o amistoso teve o diplomático resultado de 0x0, perfeito para todos.

O time recebeu um almoço no Palácio do reverendo Moon no dia seguinte (cercado por militares) e retornou ao Brasil.

Curiosamente, a Coreia do Norte enfrentaria a verdadeira seleção brasileira na copa de 2010, sendo derrotada por 2 a 1 na fase de grupos.

(Fonte: Globo Esporte, relatos de atletas e comissão técnica. Reportagem de Alexandre Alliatti, Emilio Botta e Gabriel Morelli.)

 

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