
Nesta quinta-feira, 10 de setembro, recebi uma notícia que eu preferia não ter recebido. Morreu, aos 86 anos, meu amigo Everaldo Luiz Guimarães Keppe.
Há pessoas cuja morte não cabe bem numa nota de falecimento. Datas, idade e algumas linhas sobre uma trajetória conseguem informar uma partida, mas são insuficientes para explicar uma vida.
Keppe foi uma dessas pessoas.
Notável integrante da comunidade de São Carlos, foi empreendedor, ligado à educação e ao jornalismo, interessado pela política e pelas questões sociais. Era um homem atento ao mundo. Mais do que observá-lo, tinha posições sobre ele. Defendia aquilo em que acreditava e carregava uma preocupação permanente com justiça social.
Era, de muitas maneiras, um homem à frente do seu tempo.
Mas seria injusto lembrá-lo apenas por sua atuação pública.
Everaldo gostava da vida.
Gostava da boa mesa, de viajar, de conversar, de descobrir coisas e, principalmente, de sua família. Construiu uma família bonita ao lado da queridíssimo Dona Arlete, com filhos (aqui um abraço para minha amiga Karina) e netos, e encontrou nela uma das grandes riquezas de sua caminhada.
Eu tive o privilégio de conhecer outro Keppe: o amigo.
Nossa amizade começou quando eu trabalhava no jornal Primeira Página. Ele lia meus textos e, de vez em quando, chegava um e-mail. Keppe escrevia para comentar alguma coisa que eu havia publicado.
Talvez nenhum de nós pudesse imaginar que aquelas mensagens acabariam construindo uma amizade.
E construíram.
Com o tempo, já não éramos apenas o jornalista e o leitor. Éramos amigos.
E, como acontece nas boas amizades brasileiras, havia uma questão absolutamente insolúvel entre nós.
Keppe era corintiano fanático. Eu, palmeirense fanático.
Portanto, material para provocação nunca faltou.
Vieram as brincadeiras, as vitórias comemoradas de um lado, as derrotas devidamente lembradas pelo outro e aquela rivalidade que só funciona quando existe algo muito maior sustentando tudo: carinho.
Nunca faltou carinho.
Nunca faltou respeito.
Nunca faltou amor.
Hoje eu daria muito para receber mais um daqueles e-mails. Mesmo que fosse para Keppe falar do Corinthians. E um palmeirense admitir uma coisa dessas talvez seja uma das maiores demonstrações de amizade que possa existir.
Porque, quando alguém parte, descobrimos que sentimos falta justamente dessas pequenas coisas. Não são necessariamente os grandes acontecimentos que retornam primeiro à memória. É uma conversa. Uma frase. Uma provocação. Um almoço. Um e-mail inesperado. Uma opinião que nos fazia pensar.
É a presença.
Everaldo Keppe tinha presença.
São Carlos fica mais pobre
Existem pessoas que ocupam espaços e existem aquelas que ajudam a construir o lugar onde vivem.
Keppe pertenceu ao segundo grupo.
Participou da vida de São Carlos não apenas porque morava aqui, mas porque se importava com a cidade, com a educação, com a informação, com a política e com a sociedade que deixaremos para aqueles que vêm depois de nós.
Era um homem de convicções.
Em tempos nos quais tantas pessoas escolhem a conveniência, Keppe escolhia se posicionar. Podíamos conversar, concordar, discordar, discutir futebol ou os problemas do mundo. Mas havia nele algo que sempre admirei: a disposição de não ser indiferente.
Para mim, esteve do lado certo da história porque esteve ao lado daquilo em que acreditava ser mais justo e mais humano.
Isso deixa marcas.
A morte de Everaldo Keppe, portanto, não empobrece apenas o círculo daqueles que tiveram a felicidade de chamá-lo de amigo.
São Carlos também fica mais pobre.
Mais pobre politicamente, porque perdemos uma voz.
Mais pobre culturalmente, porque perdemos um homem interessado pelo conhecimento e pelo mundo.
Mais pobre humanamente, porque perdemos alguém que construiu relações verdadeiras ao longo de 86 anos.
Para sua família, nenhuma palavra será capaz de preencher o espaço deixado pelo pai, pelo avô, pelo companheiro de uma vida inteira. Aos filhos e netos permanece aquilo que a morte não consegue levar: a história construída dentro de casa, as lembranças, os ensinamentos, os hábitos, as viagens, as conversas e todas aquelas pequenas coisas que formam a memória de uma família.
Para São Carlos, permanece o legado.
E para mim fica o amigo.
Ficam os e-mails.
Ficam as conversas.
Ficam as provocações entre o corintiano e o palmeirense.
Fica o carinho.
E fica também aquela sensação difícil de explicar que surge quando morre alguém que fez parte da nossa caminhada: o mundo continua exatamente no mesmo lugar, mas alguma coisa nele já não está onde deveria estar.
Everaldo Luiz Guimarães Keppe fará falta.
Muita falta.
Aos 86 anos, encerrou sua caminhada um homem que viveu, participou, construiu, amou sua família, cultivou amizades e jamais escolheu assistir à vida de longe.
Keppe foi uma grande pessoa.
E algumas pessoas, quando partem, não deixam apenas saudade.
Deixam o mundo um pouco menor.








