O beijo roubado no escuro

Era a festa de fim de ano da empresa. Um salão decorado com luzes amarelas, música baixa e uma formalidade que ninguém realmente respeitava. No canto do salão, ela. Vestido azul-marinho, um coque improvisado, e aquele sorriso que carregava promessas e segredos. Era a razão pela qual ele, mesmo sabendo que não devia, cruzava olhares furtivos o tempo todo.

Ela também sabia. Não era à toa que se deixava flagrar. Eles eram como duas fagulhas dançando ao redor de um incêndio que não podiam apagar. Era um jogo perigoso: ele sabia que ela era casada, ela sabia que ele era noivo. Ainda assim, ali estavam, em silêncio, trocando o tipo de olhar que faz qualquer música parar de tocar.

Quando o relógio bateu dez horas, ela se levantou. Caminhou em direção à varanda, onde as luzes da cidade pareciam mais longe do que estavam. Ele hesitou por alguns segundos. A razão mandava que ficasse, mas o coração, inquieto e rebelde, já havia se levantado antes mesmo das pernas.

Na varanda, o ar era mais frio, o silêncio mais profundo. Ela estava encostada na grade, o vestido acompanhando o vento. Ele chegou sem anunciar, como se cada passo ecoasse uma confissão.

“Você sabe que não deveria estar aqui,” ela sussurrou, mas sua voz não tinha convicção, apenas desejo disfarçado.

“Você também sabe,” ele respondeu, mais perto do que deveria.

E então aconteceu. Sem planejamento, sem palavras. Um beijo. Roubado, intenso, e cheio de culpa. O tipo de beijo que só existe na interseção entre o desejo e o impossível.

Durou poucos segundos, mas o tempo parecia ter parado. Quando se afastaram, o silêncio era ensurdecedor. Eles se olharam, respirando como se tivessem corrido uma maratona. Não era arrependimento. Era o peso de saber que aquele beijo seria o primeiro e o último.

Ela voltou para o salão antes dele, ajeitando o coque e recompondo a expressão. Ele ficou mais um pouco, olhando para o céu como se esperasse uma resposta que nunca viria.

Naquela noite, não dormiram. Não por arrependimento, mas pela memória que insistia em reviver aquele instante em que o mundo se calou para eles. Um beijo no escuro, proibido, mas eterno.