
Não sei bem que dia é hoje, mas sei que é o terceiro ou quarto em que o corpo parece feito de chumbo. Me chamo Amanda, tenho 31 anos, moro no Jardim Brasil, em São Carlos, e estou com dengue. Escrevo essas linhas com a testa grudada no travesseiro e os olhos semiabertos, porque até a claridade da janela parece me castigar.
Começou com uma febre, do nada. No primeiro dia achei que fosse só um resfriado bobo, desses que vem e vão. Mas aí veio a dor no fundo dos olhos, uma dor chata, que parecia cutucar o cérebro. Depois foi a vez das articulações — parecia que meu corpo tinha apanhado. Ombros, joelhos, até os dedos. Tudo doía. Tentei comer, mas o gosto sumiu. Tentei me levantar, mas o mundo girou. Quando percebi que até a pele doía ao encostar no lençol, entendi: isso não era só uma virose qualquer. Fui ao posto e veio a confirmação: dengue.
A médica foi direta: hidratação e repouso. O que ela não disse — talvez por compaixão — foi que eu ia passar os próximos dias sentindo como se estivesse vivendo em câmera lenta, arrastando um corpo que não é meu, convivendo com uma febre que me faz delirar. E com um medo discreto, que sussurra à noite: “e se piorar?”.
Entre um gole de soro e outro, penso em como chegamos até aqui. No meu quintal, não há vasos com água parada. Virei os pratinhos das plantas, limpei a calha depois da última chuva. Mas e os outros? E os terrenos baldios, e as casas fechadas, e os bueiros entupidos da rua? Será que os vizinhos fazem o mesmo? Será que a prefeitura anda fiscalizando? O mosquito da dengue é pequeno, mas se espalha como uma sombra. E todo mundo ajuda — ou atrapalha.
É revoltante pensar que uma picadinha tão insignificante tenha tanto poder. A gente vive correndo atrás de problemas gigantes, e aí um mosquito aparece e derruba uma cidade inteira. Eu, que ontem estava no trabalho, hoje não consigo sair do sofá. E não sou a única. Tenho amigas com os mesmos sintomas. O bairro está cheio de casos. Parece que agora a dengue é uma estação do ano. Passamos do verão pro outono e, sem perceber, estamos na “época da dengue”.
Eu queria muito que essa crônica fosse só uma história triste com final feliz. Que amanhã eu acordasse curada, sem dor, com apetite, pronta pra voltar à rotina. Mas mais do que isso, queria que ninguém mais passasse por isso. Queria que todos entendessem: a dengue não escolhe casa bonita ou bairro humilde. Ela voa. E se a gente não fizer a nossa parte — todos nós, sem exceção — ela pousa.
Agora vou tentar dormir mais um pouco. A cabeça ainda dói. Mas precisava escrever. Porque, às vezes, é preciso gritar mesmo quando a voz está fraca. Que a dengue não seja apenas mais uma notícia no jornal. Que seja um alerta. Enquanto isso, sigo aqui, com uma garrafinha de água do lado, tentando atravessar essa febre no silêncio do meu quarto. No Jardim Brasil. Em São Carlos. Onde o mosquito também mora — e precisa ser despejado por todos nós.








