
Estela descia a Rua XV como quem volta aos poucos para o próprio passado. O sol de São Carlos filtrava entre as copas das árvores da praça, e ela caminhava com os passos de quem procura por algo que ficou suspenso no tempo. Ali, naquela praça, os dias pareciam ter mais luz quando divididos com Cadu.
Foi naquele mesmo banco — perto da banca de jornal- onde riram pela primeira vez de um piquenique mal planejado. Onde ensaiaram canções, planos, futuros. Mas o destino, esse poeta melancólico, tinha outros planos. A morte dos pais dela a levou para longe, para o frio do sul, onde o tempo parecia escorrer mais devagar.
A internet, no começo, foi ponte. Eram mensagens diárias, ligações de horas, promessas de reencontro. Mas o tempo foi dissolvendo a frequência, apagando os sorrisos digitais. Um dia, sem despedida, só restou o silêncio.
Anos depois, o inventário da antiga casa trouxe Estela de volta. E com ele, o desejo insistente de rever Cadu. Andou pela cidade como quem busca um fantasma. O prédio da padaria da família dele estava fechado, com as portas corroídas pelo abandono. Buscou nas redes, em sites, em fóruns… nada.
Foi quando lembrou da cafeteria que os pais dele queriam abrir. A “Cadu Café” ficava na Vila Nery, e lá foi ela, guiada mais pelo coração do que por pistas concretas.
Ao empurrar a porta, o cheiro de café fresco e saudade a invadiu. Nas paredes, registros de um tempo que ela não viveu. Cadu sorria em fotos tocando violão, servindo clientes, abraçado a amigos. Vê-lo ali, congelado em imagens, foi como reencontrar um pedaço da alma.
A caixa no balcão arregalou os olhos ao vê-la.
— Você é a Estela? — disse Dona Norma, a mãe de Cadu, com a voz trêmula.
Estela confirmou com um aceno contido.
— Não precisa se apresentar, meu bem. Você nunca deixou de estar aqui. O Cadu falava de você até os últimos dias…
As palavras vieram como um soco. Estela engoliu em seco.
— Os últimos dias?
Dona Norma respirou fundo, os olhos marejados.
— Ele partiu aos 22… Leucemia. Foi rápido. A gente não teve tempo nem de gritar com Deus.
A notícia fez Estela se sentar. O chão parecia distante, e o peito, um tambor vazio.
— Mas ele deixou algumas coisas… escreveu textos no computador. Tem uma carta que ele pediu pra guardar. Pra você. Eu nunca soube se um dia teria chance de entregá-la. Não tinha seus contatos…
Dona Norma desapareceu por alguns minutos e voltou com um envelope amarelado, a carta tinha sido impressa. Dentro, o que restava de um amor interrompido:
CARTA DE CADU
Estela,
Se essa carta chegou até você, é sinal de que a vida foi generosa o suficiente para te trazer de volta, mesmo que eu já não esteja mais aí pra ver.
Eu não sei se a gente ainda se fala, se você ainda lembra do meu riso torto ou dos nossos planos de abrir um estúdio de música no porão da sua casa. Eu não sei de quase nada, só sei que você foi a parte mais bonita da minha vida.
Quando você se mudou, a internet foi nosso cordão umbilical. Mas aos poucos a vida foi empurrando a gente pros lados, feito folhas secas em correnteza. Te escrevo agora porque não tenho mais como te esperar nas esquinas, nos sons de mensagens, nos sonhos.
Tive azar, Estela. Azar de ter o corpo traído por células insensíveis ao amor que eu ainda tinha pra dar. Azar de não poder envelhecer ao seu lado, de não te ver voltando, talvez com flores no cabelo ou marcas do tempo na pele, e rir das rugas como quem ri de uma velha canção.
Mas se o destino falhou com a gente, saiba que o que vivemos não falhou. Você me ensinou que o amor não precisa durar uma vida inteira pra ser eterno.
Se você ainda lembra da nossa música — aquela que a gente inventou na Praça da XV — toca ela por mim. Nem que seja só no pensamento.
Com amor, sempre,
Cadu
Estela fechou os olhos, com a carta sobre o colo e o coração transbordando. Lá fora, a banca da praça ainda estava lá. Talvez a música ainda ecoasse. Talvez o amor — como o café recém-passado — ainda estivesse quente em algum lugar do tempo.
Baseado numa história de duas famílias são-carlenses.









