Aos 95 anos, Dona Odete dá uma aula de cidadania em São Carlos

Há cenas que parecem pequenas diante da movimentação de um dia de eleição. Pessoas chegando, filas se formando, documentos nas mãos, mesários trabalhando, eleitores entrando e saindo. Mas algumas dessas cenas carregam um significado muito maior.

Neste domingo, 4 de outubro, na Escola Paulino Carlos, em São Carlos, Dona Odete chegou para votar.

Ela tem 95 anos.

Talvez alguém pudesse dizer que, nessa altura da vida, ela já cumpriu suficientemente seus deveres. Que poderia permanecer em casa. Afinal, para quem tem mais de 70 anos, o voto é facultativo.

Mas Dona Odete foi.

E foi porque cidadania não se mede apenas pela obrigação.

Aos 95 anos, ela caminhou até sua seção eleitoral para exercer um direito que atravessou praticamente um século de sua própria existência. Uma vida inteira vendo o Brasil mudar, governos passarem, gerações nascerem, costumes se transformarem e a própria democracia brasileira viver diferentes capítulos.

Quantas eleições cabem em 95 anos?

Quantas esperanças? Quantas decepções? Quantas mudanças?

Não sabemos em quem Dona Odete votou — e isso pertence somente a ela.

Aliás, talvez essa seja justamente uma das coisas mais bonitas do voto: diante da urna, Dona Odete é simplesmente uma cidadã. Seu voto tem exatamente o mesmo peso do voto de quem acaba de completar 16 anos e participa de uma eleição pela primeira vez.

Um voto.

Uma pessoa.

Uma consciência.

É assim que a democracia deveria ser compreendida.

Não importa o candidato escolhido, a ideologia ou a preferência política. A imagem de uma senhora de 95 anos fazendo questão de participar de uma eleição fala sobre algo anterior a todas essas diferenças: o direito de escolher.

Dona Odete poderia ter ficado em casa.

Preferiu participar.

E talvez, sem fazer discurso algum, tenha deixado uma mensagem para quem estava ao redor.

Democracia também é presença.

É compreender que a urna não pertence a um partido, a um candidato ou a uma corrente política. Ela pertence ao cidadão.

Neste domingo, na Escola Paulino Carlos, Dona Odete depositou o seu voto.

Mas deixou conosco algo ainda maior.

Aos 95 anos, deixou uma bela aula de cidadania.