São Carlos tem candidatos, mas falta projeto político para voltar a eleger deputados

ão Carlos tem candidatos, mas falta projeto político para voltar a eleger deputados
ão Carlos tem candidatos, mas falta projeto político para voltar a eleger deputados/Foto: Divulgação

São Carlos acordou deposis das eleições de 2026 diante de uma situação que já deixou de ser novidade: novamente, a cidade não conseguiu eleger deputados (as) estaduais ou federais diretamente ligado à sua base política.

Desta vez, porém, os números tornam a discussão ainda mais necessária.

Foram 18 candidaturas vinculadas a São Carlos: 11 para deputado estadual e sete para deputado federal. Nenhuma conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo ou na Câmara dos Deputados.

Newton Lima (PT) foi o candidato local a deputado estadual com maior votação, chegando a 32.544 votos. Júlio César (PL) obteve 24.219. Na disputa federal, Raquel Auxiliadora (PT) alcançou 11.732 votos e Bruno Zancheta (Republicanos), 11.090.

Somados, os 11 candidatos a deputado estadual alcançaram 78.082 votos. Os sete nomes que disputaram a Câmara Federal reuniram outros 27.682 votos.

Há votos.

Há candidatos.

Há partidos.

O que parece faltar a São Carlos é outra coisa: um projeto político suficientemente convincente para transformar tudo isso em representação parlamentar.

A pulverização dos votos explica apenas uma parte

Depois de cada eleição sem deputados, ressurge a mesma explicação: São Carlos tem candidatos demais e, por isso, divide seus votos.

Existe verdade nessa análise.

Dezoito candidaturas ligadas a uma única cidade representam uma oferta enorme de nomes ao eleitor. Naturalmente, diferentes grupos políticos, ideológicos e partidários disputam o mesmo eleitorado.

Mas seria simplista responsabilizar exclusivamente a quantidade de candidatos.

Primeiro porque vivemos em uma democracia. Ninguém pode decidir previamente quem tem ou não o direito político de disputar uma eleição.

Segundo porque o voto pertence ao eleitor.

E terceiro porque deputados estaduais e federais são escolhidos pelo sistema proporcional. Não basta analisar isoladamente quantos votos determinado candidato recebeu. O desempenho de partidos e federações também interfere na distribuição das cadeiras.

Portanto, talvez São Carlos esteja fazendo a pergunta errada.

Em vez de perguntar apenas por que existem tantos candidatos, deveríamos perguntar: por que nenhum projeto conseguiu convencer suficientemente o eleitor?

O eleitor de São Carlos não deve voto a ninguém

Existe uma ideia recorrente em períodos eleitorais de que o cidadão deveria votar em candidatos da própria cidade para garantir representação política.

É um argumento compreensível.

Ter parlamentares profundamente ligados ao município pode facilitar a interlocução política, a apresentação das demandas locais, a articulação de recursos e a defesa dos interesses regionais.

Mas isso não cria obrigação para o eleitor.

Ninguém deve votar em determinado candidato simplesmente porque ele mora em São Carlos.

É exatamente o contrário.

Cabe ao candidato convencer o eleitor de que merece seu voto.

Se uma parcela expressiva da população prefere entregar seu voto a candidatos de outras cidades, esse comportamento também precisa ser interpretado politicamente.

Talvez esteja faltando convencimento.

Talvez esteja faltando identificação.

Talvez esteja faltando apresentar claramente ao eleitor qual projeto aquele candidato representa para São Carlos e para a região.

Uma candidatura precisa ser construída antes da eleição

Esse talvez seja um dos pontos centrais da discussão.

Um projeto para deputado não deveria nascer alguns meses antes da abertura das urnas.

São Carlos precisa de lideranças que construam presença política durante quatro anos, e não apenas durante uma campanha eleitoral.

Isso significa participar das grandes discussões da cidade.

Significa conhecer seus problemas.

Significa dialogar com universidades, trabalhadores, empresários, comerciantes, bairros, movimentos sociais, entidades, setor tecnológico, agricultura, saúde, educação e segurança pública.

E, principalmente, significa apresentar respostas.

Qual é o projeto de São Carlos para os próximos 20 anos?

Como a cidade pretende aproveitar sua capacidade científica e tecnológica?

Como melhorar sua infraestrutura?

Como fortalecer sua indústria?

Como ampliar oportunidades de emprego?

Como enfrentar problemas de saúde, mobilidade, habitação e segurança?

Como transformar o conhecimento produzido por USP, UFSCar, Embrapa e tantos centros de pesquisa em desenvolvimento econômico?

Quem pretende representar São Carlos em São Paulo ou Brasília precisa demonstrar que conhece essas questões e apresentar propostas capazes de mobilizar a sociedade.

E existe outro problema: São Carlos precisa sair de São Carlos

Há ainda uma realidade matemática e política que não pode ser ignorada.

Uma candidatura competitiva a deputado dificilmente pode depender exclusivamente dos votos do próprio município.

É necessário construir uma liderança regional.

São Carlos precisa conversar politicamente com Ibaté, Descalvado, Porto Ferreira, Ribeirão Bonito, Dourado, Itirapina e outros municípios.

Um projeto parlamentar precisa ultrapassar as divisas municipais.

Isso exige articulação partidária, presença regional, alianças, conhecimento das demandas das cidades vizinhas e trabalho permanente.

Não basta ser candidato de São Carlos.

É necessário construir condições para ser representante de uma região.

O problema não é falta de importância

Talvez seja justamente isso que torne a situação mais incômoda.

São Carlos não é uma cidade sem relevância.

É um município com universidades reconhecidas internacionalmente, centros de pesquisa, indústria, agronegócio, comércio, serviços e um ecossistema tecnológico que tornou conhecida a expressão “Capital da Tecnologia”.

Mesmo assim, essa força econômica, científica e social não tem sido convertida proporcionalmente em força política eleitoral.

E isso deveria incomodar todas as correntes políticas.

Não é uma discussão de esquerda contra direita.

Em 2026 havia candidatos dos mais diferentes campos ideológicos.

O resultado foi comum a todos: nenhuma cadeira.

Talvez esteja faltando um projeto que venha antes do nome

A discussão para 2030 não deveria começar perguntando quem será candidato.

Talvez essa pergunta devesse vir depois.

Antes dela, São Carlos poderia discutir o que deseja de seus representantes.

Quais são as prioridades da cidade?

Quais projetos deveriam ser defendidos na Assembleia Legislativa?

Quais demandas deveriam chegar ao Congresso Nacional?

Qual papel São Carlos pretende exercer na região?

Depois dessas respostas, surgiriam os nomes dispostos a defender esses projetos.

A política local costuma fazer o caminho inverso: primeiro aparecem os candidatos; depois cada candidatura tenta construir uma justificativa para pedir o voto.

Talvez esteja aí parte do problema.

Não precisamos de uma candidatura única. Precisamos de candidaturas convincentes

Defender maior articulação política não significa defender uma candidatura única escolhida por partidos ou lideranças.

Isso seria ignorar a pluralidade política de São Carlos.

Direita, esquerda e centro têm o direito legítimo de apresentar seus candidatos.

O eleitor tem o direito igualmente legítimo de escolher entre eles.

O que São Carlos precisa são projetos competitivos.

Candidaturas capazes de olhar para além das próprias bases partidárias, conquistar a confiança da população e construir presença regional.

Porque eleição não se vence reivindicando que o eleitor vote em alguém simplesmente por ser “da cidade”.

Voto se conquista.

Representatividade se constrói.

E liderança política precisa ser exercida muito antes do período eleitoral.

As urnas de 2026 deixaram uma mensagem que São Carlos não deveria ignorar.

A cidade teve 18 candidatos.

Teve milhares de votos.

Teve diferentes partidos e ideologias disputando espaço.

Mas continuará sem deputado estadual ou federal diretamente eleito a partir de sua base política.

Talvez, portanto, o problema de São Carlos não seja a falta de candidatos.

Talvez esteja faltando um projeto político capaz de convencer a cidade de que vale a pena transformá-lo em representação.

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